O
que se deve aprender?
Publicado
nesta sessão em 25/03/06
O
termo “conteúdos” normalmente é
utilizado para expressar aquilo que deve se aprender, mas
em relação quase que exclusiva aos conhecimentos
das matérias ou disciplinas clássicas e, habitualmente,
para aludir àquelas que se expressam no conhecimento
de nomes, conceitos, princípios, enunciados e teoremas.
Porém,
dentro da concepção de educação
como formação integral, os “conteúdos”
não se reduzem unicamente às contribuições
das disciplinas ou matérias tradicionais. Devemos nos
desprender desta leitura restrita do termo “conteúdo”,
e entende-lo como tudo quanto se tem para aprender a alcançar
determinados objetivos que não apenas abrangem as capacidades
cognitivas, mas também ao desenvolvimento das capacidades
motoras, afetivas, de relação interpessoal e
de inserção social.
Assim,
dentro da constatação da limitação
da definição dos objetivos escolares, quando
restritos aos “conteúdos” clássicos,
vários pesquisadores propuseram novas definições
para a parte de formação do aluno não
incluída no currículo tradicional. Dentre estas
definições, uma de alto poder explicativo é
a de Coll (1986), que propõe um agrupamento de “novos
conteúdos”, que são os conceituais, procedimentais
e atitudinais. Esta classificação corresponde
respectivamente às perguntas “o que se deve saber?”,
“como se deve fazer?” e “como se deve ser?”,
com o fim de alcançar as capacidades propostas nas
finalidades educacionais.
Uma breve explicação sobre esta nova denominação
de conteúdos é necessária para o entendimento
de uma proposta pedagógica.
Os
conteúdos conceituais, que cumprem a função
do “o que se deve saber?”, possuem uma ramificação
entre conteúdos factuais, e entre os conceituais propriamente
ditos. Como conteúdos factuais, entende-se o conhecimento
de fatos, acontecimentos, situações, dados,
nomes e códigos. Sua singularidade e seu caráter,
descritivo e concreto, são um traço definidor.
Lembremos da toponímia na área da geografia,
as datas e nomes da história, os autores da literatura,
os códigos das áreas de língua, matemática,
física e química, as classificações
da biologia, o vocabulário da língua estrangeira,
etc.
Tradicionalmente,
os fatos têm sido a bagagem mais aparente do vulgarmente
denominado “homem culto”, objeto de provas e inclusive
concursos.
Símbolo
desta tipologia de conteúdo é também
a clássica aula expositiva, a transmissão unidirecional
de informações, com a exigência do silêncio
e alguma estratégia de memorização. Vale
ressaltar que estes conteúdos estão presentes
em todas as escolas (cito logicamente a própria Monteiro
Lobato Cems), e este modelo de aula é o mais eficaz
para estas situações. Porém, não
se aprende só conteúdos factuais na escola,
nem a memória é única faculdade cognitiva
demandada dos alunos, e por conseqüência a metodologia
da escola não pode ser somente a exposição
de matéria.
Os
conteúdos conceituais são mais abstratos. Os
conceitos se referem ao conjunto de fatos, objetos ou símbolos
que têm características comuns. Os princípios,
categoria incluída nos conteúdos conceituais,
se referem às mudanças que se produzem num fato,
objeto ou situação em relação
a outros fatos, objetos e situações e que normalmente
descrevem relações de causa-efeito ou de correlação.
São exemplos de conceitos: mamífero, densidade,
impressionismo, função, sujeitos, romantismo,
demografia, nepotismo, cidade, potência, revolução
e capitalismo.Todos estes conhecimentos têm uma coisa
em comum: demandam “compreensão”. Não
podemos dizer que se aprendeu um conceito ou princípio
se não se entendeu o significado. Saberemos que faz
parte do conhecimento do aluno não apenas quando este
é capaz de repetir sua definição, mas
quando sabe utiliza-lo para a interpretação,
compreensão ou exposição de um fenômeno
ou situação.
As
condições de aprendizagem de conceitos ou princípios
partem de atividades complexas que provocam um verdadeiro
processo de elaboração e construção
pessoal do conceito. Privilegia-se neste momento as atividades
experimentais que favoreçam que os novos conteúdos
de aprendizagem se relacionem substantivamente com os conhecimentos
prévios do aluno; atividades que promovam uma forte
atividade mental que favoreça estas relações;
atividades que outorguem significado e funcionalidade aos
novos conceitos a fim de utiliza-los para a interpretação
ou o conhecimento de situações, ou para a construção
de outras idéias.
Fica
claro neste ponto a necessidade de uma abordagem metodológica
muito mais ampla do que a mera aula expositiva, de memorização,
para o sucesso das construções conceituais.
Os
conteúdos procedimentais são as regras, as técnicas,
os métodos, as destrezas ou habilidades, as estratégias.
É um conjunto de ações ordenadas e com
um fim, quer dizer, dirigidas para a realização
de um objetivo. São conteúdos procedimentais:
ler, desenhar, observar, calcular, classificar, traduzir,
inferir, saltar, espetar, etc. São condições
indispensáveis para qualquer outro aprendizado e demandam
a exercitação, pois se aprende a fazer, fazendo.
Por
fim apresentamos os conteúdos atitudinais, que podemos
agrupar em valores, atitudes e normas. Particulares de cada
instituição, em função da percepção
de seu papel na sociedade, representam um conjunto de valores
partilhados pela coletividade, indicam o que se pode ou não
fazer na mesma, direcionam para a percepção
da vida no espaço público, na troca e compartilhamento
com os outros. Dentro destes conteúdos podemos exemplificar
a cooperação, solidariedade, respeito, socialização,
integração, justiça, ética e o
envolvimento para a construção do novo. Estes
conteúdos estão impregnados em cada aprendizado,
em cada relação afetiva e de convivência
no espaço escolar, e não podem ser ignorados.
Antoni
Zabala é pesquisador espanhol e autor do livro
A Prática Educativa, Ed. Artmed, de 1998.
COMENTÁRIOS
Apesar
do texto acima ter um caráter técnico, ser longo
para este tipo de comunicação (email) e com
um certo “pedagogês”, julgamos sua apresentação
de extrema importância, pois o mesmo é uma referência
acerca de nossos objetivos educacionais para seus filhos,
nossos alunos. Assim, queremos iniciar a discussão
sobre a amplitude dos objetivos de nossa escola e detalhar,
no decorrer deste ano, como isto acontece no dia-a-dia.
A
escolha feita pela Monteiro Lobato Cems demonstra que os senhores
esperam algo mais na educação de seus filhos,
que possuem um grau de exigência e crítica sobre
o processo educativo acima da média e por estes motivos
nos damos a liberdade de nos comunicarmos neste tipo de linguagem.
Trabalhar com textos de referência é uma maneira
que encontramos para aproximarmos nossa comunidade de pais
do que é feito na escola. Ao longo deste ano realizaremos
mais iniciativas como esta e também encontros e debates
sobre educação. Esperamos contar com seu envolvimento
e participação.
Sabemos
que envolver a comunidade nas discussões sobre educação
eleva o nível do trabalho pedagógico da escola,
cria sintonia e beneficia a todos, principalmente os alunos.
Gustavo
C. Gomes
Vice-diretor
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