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Registro na memória é involuntário

Publicado nesta sessão em 27/05/05

Certa vez, um homem teve um atrito com um colega de trabalho. Acho que foi tratado com a maior injustiça. Disse ao colega que o riscaria da sua vida. Fez um esforço enorme pra se livrar dele. Mas quanto mais tentava esquecê-lo, mais pensava nele, mais reconstruía o sentimento de injustiça. Por que ele não conseguiu cumprir sua promessa? Porque o registro é automático, não depende da vontade humana.

A rejeição de uma idéia negativa poderá nos fazer escravos dela. Rejeite uma pessoa, e ela dormirá com você, estragando seu sono. Perdoá-la fica emocionalmente mais barato. Como vimos, nos computadores o registro depende de um comando do usuário. No ser humano, o registro é involuntário, realizado, como já vimos, pelo fenômeno RAM (registro automático de memória).

Cada idéia, pensamento, reação ansiosa, momento de solidão, período de insegurança são registrados em sua memória e farão parte da colcha de retalhos da sua história existencial, do filme da sua vida.

Algumas implicações desse papel da memória:

 

- Cuidar do que pensamos no palco da nossa mente é cuidar da qualidade de vida.
- Cuidar do que sentimos no presente é cuidar do futuro emocional, do quanto seremos
felizes, tranqüilos e estáveis.
- A personalidade não é estática. Sua transformação depende da qualidade de arquivamento das experiências ao longo da vida, mesmo tendo uma infância feliz. Uma criança alegre pode se tornar um adulto triste, e uma criança triste e traumatizada pode se tornar um adulto alegre e saudável.
- A qualidade das informações e experiências registradas poderá transformar a memória num solo fértil ou num deserto árido, sem criatividade.

A EMOÇÃO DETERMINA A QUALIDADE DO REGISTRO

Um psicólogo clínico pediu a um paciente que contasse detalhes do seu passado. O paciente se esforçou, mas só conseguiu falar de algumas dezenas.

O psicoterapeuta achou que ele estava bloqueado ou dissimulando. Na realidade, o paciente estava correto. Nós só conseguimos dar detalhes das experiências que envolvem perdas, alegrias, elogios, medos, frustrações. Por que? Porque a emoção determina a qualidade do registro. Quanto maior o volume emocional envolvido em uma experiência, mais o registro será privilegiado e mais chance terá de ser resgatado.

Onde ele é registrado? Na MUC, que é a memória de uso contínuo ou memória consciente. As experiências tensas são registradas no centro consciente, e a partir daí serão lidas continuamente. Com o passar do tempo, elas vão sendo deslocadas para a periferia inconsciente da memória, chamada de ME, memória existencial.

Em alguns casos, o volume de ansiedade ou sofrimento pode ser tão grande que provoca um bloqueio da memória. Este bloqueio é uma defesa inconsciente que evita o resgate e a reprodução da dor emocional. É o caso das experiências que envolvem acidentes ou traumas de guerras. Algumas crianças sofreram tanto na infância, que não conseguem recordar esse período de sua vida.

Normalmente as experiências com alta carga emocional ficam disponíveis para serem lidas e gerarem milhares de novos pensamentos e emoções. Uma ofensa não-trabalhada pode estragar o dia ou a semana. Uma rejeição pode encarcerar uma vida. Uma criança que fica presa num quarto escuro pode desenvolver claustrofobia. Um vexame em público pode gerar fobia social.

Algumas implicações da relação da emoção que interferem no registro da memória:

 

- Ensinar a matéria estimulando a emoção dos alunos desacelera o pensamento, melhora a concentração e produz um registro privilegiado.
- Os professores e os pais que não provocam a emoção dos jovens não educam, apenas informam.
- Dar conselhos e orientações sem emoção não gera “momentos educacionais” no mercado da memória.
- Pequenos gestos que geram intensa emoção podem influenciar mais a formação da personalidade das crianças do que os gritos e pressões.
- As brincadeiras discriminatórias e os apelidos pejorativos feitos em sala de aula podem gerar experiências angustiantes capazes de produzir graves conflitos.
- Proteger a emoção é fundamental para se ter qualidade de vida.

Trecho extraído do Livro "Pais brilhantes, professores fascinantes" de Augusto Cury

 

   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
 
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