O
livro é passaporte, é bilhete de partida
Publicado
nesta sessão em 03/11/06
Desconheço
liberdade maior e mais duradoura do que esta do
leitor ceder-se à escrita do outro, inscrevendo-se
entre as suas palavras e os seus silêncios. Texto e
leitor ultrapassam a solidão individual para se enlaçarem
pelas interações. Esse abraço a partir
do texto é soma das diferenças, movida pela
emoção, estabelecendo um encontro fraterno e
possível entre leitor e escritor. Cabe ao escritor
estirar sua fantasia para, assim, o leitor projetar seus sonhos.
As palavras são portas e janelas. Se debruçamos
e reparamos, nos inscrevemos na paisagem. Se destrancamos
as portas, o enredo do universo nos visita. Ler é somar-se
ao mundo, é iluminar-se com a claridade do já
decifrado. Escrever é dividir-se.
Cada palavra descortina um horizonte, cada frase anuncia outra
estação. E os olhos, tomando das rédeas,
abrem caminhos, entre linhas, para as viagens do pensamento.
O livro é passaporte, é bilhete de partida.
A leitura guarda espaço para o leitor imaginar sua
própria
humanidade e apropriar-se de sua fragilidade, com seus sonhos,
seus devaneios e sua experiência. A leitura acorda no
sujeito dizeres insuspeitados enquanto redimensiona seus entendimentos.
Há trabalho mais definitivo, há ação
mais absoluta do que essa
de aproximar o homem do livro?
Reconheço, porém, um momento em que se dá
o definitivo
acontecimento: a certeza de que o mundo pessoal é insuficiente.
Há que buscar a si mesmo na experiência do outro
e inteirar-se dela. Tal movimento atenua as fronteiras e a
palavra fertiliza o encontro.
Acredito que ler é configurar uma terceira história,
construída
parceiramente a partir do impulso movedor contido na fragilidade
humana, quando dela se toma posse. A fragilidade que funda
o homem é a mesma que o inaugura, mas só a palavra
anuncia.
A iniciação à leitura transcende o ato
simples de apresentar ao
sujeito as letras que aí estão já escritas.
É mais que preparar o leitor para a decifração
das artimanhas de uma sociedade que pretende também
consumi-lo. É mais do que a incorporação
de um saber frio, astutamente construído.
Fundamental, ao pretender ensinar a leitura, é convocar
o homem para tomar da sua palavra. Ter a palavra é,
antes de tudo, munir-se para fazer-se menos indecifrável.
Ler é cuidar-se, rompendo com as grades do isolamento.
Ler é evadir-se com o outro, sem contudo perder-se
nas várias faces da palavra. Ler é encantar-se
com as diferenças.
Bartolomeu Campos Queirós é
Mineiro, graduado em Filosofia com especialidade em arte-educação
pelo instituto Pedagógico Nacional de Paris, escritor
e poeta premiado nacional e internacionalmente, conferencista
e autor de publicações sobre educação
e leitura.
O livro é passaporte, é bilhete de partida.
In: PRADO, Jason et CONDINI, Paulo (orgs.) A formação
do leitor - pontos de vista. Rio de Janeiro: Argus, 1999.
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