Páscoa,
o lado avesso da pele
Publicado
nesta sessão em 29/04/05
Uma das características da pós-modernidade
é a redução da cultura a mero entretenimento
e a exacerbação dos sentidos em detrimento da
razão e do espírito. Para estimular o consumismo,
utilizam-se como isca recursos capazes de nos fazer sentir
mais e pensar menos. Isso vale para a publicidade, certos
programas televisivos e até rituais religiosos.
Dissemina-se uma cultura centrada no epidérmico,
na qual há mais estética que ética, nádegas
que cabeças, urros que melodias, ambições
que princípios, devaneios que utopias. Tudo é
aqui e agora, a ser devorado por olhos e ouvidos, o corpo
entregue a um frenesi de sensações que fazem
do prazer e do sexo simulacros da felicidade e do amor.
Seres relacionais e racionais, como acentuam
os filósofos desde Sócrates, somos agora reduzidos
a seres "extrofiados", revirados para fora, estranhos
a nós próprios, como lamentava Kierkegaard,
pois nossa auto-estima passa a depender do que vem de fora
- da gula e da antropofagia visual aos arremedos de fama,
fortuna e poder.
Páscoa significa travessia, passagem.
Talvez uma das mais difíceis é a que nos faz
percorrer o caminho entre a epiderme e a vida interior, não
para dualizar polaridades, mas para resgatar a unidade. O
budismo tibetano tem razão ao afirmar que, malgrado
todo avanço científico e tecnológico,
cada pessoa é ontologicamente a mesma desde que o símio
tomou consciência de que o galho de árvore em
sua mão poderia servi-lhe de arma de ataque e de defesa.
Aristóteles sintetizou-nos em esferas
sensitiva, racional e espiritual, como unidade que exige equilíbrio.
A exacerbação de uma resulta na atrofia das
outras. Só a predominância do espiritual é
capaz de imprimir sensatez "às loucas da casa",
como frisou Teresa de Ávila, evitando o sabor de náusea
dos sentidos, descrito por Sartre, bem como o racionalismo
que, ao contrário de Tómas de Aquino, julga
equivocadamente que a razão é a suprema expressão
da inteligência.
Fazer Páscoa em si mesmo é cultivar
a subjetividade. "Beber do próprio poço",
sugerem os místicos. Desnudar-se de ilusões
egocêntricas, jejuar os sentidos, adequar a razão
aos seus limites, orar e meditar para poder contemplar. Somos
seres vocacionados à transcendência. Como dizia
Hélio Pellegrino, uma samambaia desfruta de sua plenitude
vegetal. Nós, não; escravos do desejo, temos
buracos no corpo e na alma. É a "gula de Deus",
da qual falava Rimbaud.
Ao deixar de trilhar as veredas que conduzem
ao absoluto, corremos o risco de nos perder no acidentado
terreno que cotidianiza o absurdo: iras e mágoas, inveja
e competição, medo e, sobretudo, uma incômoda
sensação de não saber exatamente o que
fazer desse breve período de existência.
A Páscoa
é precedida de morte que, emblematicamente, a tradição
cristã qualifica de paixão, um ato de amor,
de entrega, que faz refluir tudo aquilo que dispersa, aliena
e ilude. Jesus no túmulo simboliza o silêncio,
a volta ao mais íntimo de si mesmo, abraçando
a solidão sem se sentir solitário. Ressuscitar,
renascer na ousadia de assumir valores altruístas e
empenhar-se para que a justiça seja o fundamento da
paz.
Tudo que existe pré-existe, subsiste e coexiste. É
universo, e não pluriverso.
Comunhão e luz. Não é
em vão que os orientais chamam o centro energético
do nosso ser, lá onde se situa o coração,
de plexo solar. O silêncio das galáxias no infinito
é um convite para que se saiba fechar os olhos para
ver melhor. E descobrir, no âmago de si, a presença
amorosa de Deus, que impregna o lado avesso da pele e anseia
fluir por todo o corpo, palavras e atos, de modo a fazer de
nós seres vitalmente pascais, cuja existência
coincida com a sua essência.
Carlos
Alberto Libânio Christo, o Frei Betto,
60, frade dominicano e escritor, é autor de, entre
outras obras, "Treze Contos Diabólicos e um Angélico"
(Planeta).
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