Reflexões
sobre o dever de casa
Publicado
nesta sessão em 13/05/05
Nossas
reflexões sobre dever de casa iniciam-se com a observação
de que os colégios têm sido "mensurados"
pelas famílias em uma escala de "mais" ou
"menos" "fortes" ou "fracos".
E todos desejam ver seus filhos em colégios "fortes".
O dever de casa é um dos elementos de que os pais se
utilizam para emitirem seu juízo. Isso faz sentido,
porque, fora dos muros, o dever de casa é o que há
de mais visível de todo o trabalho escolar.
Os
deveres de casa de diferentes escolas costumam ser comparados
a partir de dois critérios. Um deles é o tempo
gasto pelo filho para fazê-lo. E, conforme os valores
da família, esse tempo é considerado excessivo
ou insuficiente. Esse critério é extremamente
subjetivo e as escolas não têm como satisfazer
as famílias nesse particular. Mas a tendência
parece ser a de que é raro encontrar uma família
que não se importe com o fato de que seus filhos são
sempre os primeiros a descer para brincar no playground do
prédio. O outro critério é a quantidade
de deveres. Quanto maior a quantidade, mais forte é
a escola.
Os
dois critérios são quantitativos. Não
é à toa que Piaget encontrou, em suas investigações
sobre a construção da moral, critérios
exclusivamente quantitativos em crianças pequenas,
para aquilatar a gravidade da mentira e dos desajeitamentos.
Para elas, é mais sério quebrar 15 xícaras
sem querer do que uma única xícara de propósito.
Da mesma forma, dizer que viu um cachorro tão grande
quanto uma vaca é mais mentiroso do que afirmar que
tirou boas notas sem ter sequer feito prova alguma. Explica-se:
cachorro do tamanho de uma vaca é mentira muito maior
do que a das notas porque é muito mais impossível
a primeira situação do que a segunda. A mensuração
aqui foi do grau de verossimilhança. Penso que o mesmo
se aplica aos leigos quando tentam avaliar algo que desconhecem:
olham para as aparências e se esforçam por encontrar
escalas quantitativas, utilizando-se de quaisquer critérios
de que possam lançar mão.
Uma
família não tem como saber, no dia-a-dia, como
seu filho está indo na escola. Não tem acesso
à sua participação em sala, não
faz idéia se o que está dizendo e fazendo na
escola é de boa qualidade, o quanto consegue aprender
durante a aula, etc, etc. Assim, lança mão do
que pode, literalmente, ver: quanto tempo seu filho dedica
aos "estudos" em casa – seja para fazer os
deveres, seja para preparar-se para as provas. Por isso, qualquer
medida que seja percebida, pelas famílias, como decréscimo
de quantidades tenderá a afetar diretamente a imagem
de uma escola, abrindo-se o risco de passar a ser considerado
"fraca". A qualquer retirada, é preciso opor
significativo acréscimo de outra coisa, a ser anunciado
claramente.
Além
da percepção que as famílias têm
a respeito do dever de casa, quais são suas grandes
questões intrínsecas?
Na
obra da pesquisadora Martha Guanaes Nogueira (Tarefa de Casa
– uma violência consentida?, São Paulo:
Edições Loyola, 2002), são levantadas
questões pertinentes: De quem é o dever de casa?
Quais são as funções do dever de casa
nos dias de hoje em comparação com os de ontem?
Como os pais, os professores e os alunos vêem o dever
de casa? Quem gosta dele? Quem desejaria aboli-lo, modificá-lo?
– dentre outras.
Da
parte dos professores, os objetivos apontados para o dever
de casa são:
- reforço
de aprendizagem;
- fixação da matéria dada;
- complementação da aula (porque não
há tempo dentro da aula para tudo que se deseja trabalhar,
então uma parte desse trabalho é deslocada
para casa);
- desenvolver a responsabilidade;
- ajudar a formar hábitos de estudo;
- como um meio de integração família-escola;
- como um meio de ocupar as crianças para que não
fiquem à toa.
Essa lista merece atenção e comentários.
Em primeiro lugar, perguntaria se o dever de casa é
mesmo um bom recurso para, por exemplo, desenvolver a responsabilidade,
quando se sabe que, em muitos dos casos, a própria
escola pressiona a família para garantir que o filho
faça o dito cujo. Outra pergunta pertinente é
por que a escola deveria, através do dever de casa,
impedir que o aluno decida o que fazer com seu tempo livre.
Também vale indagar se "fixar a matéria"
ainda é um objetivo adequado para tempos em que o próprio
conhecimento não tem tempo para fixar-se a si próprio,
dada a velocidade com que se produzem pesquisas que derrubam
as certezas mais rapidamente do que conseguimos delas tomar
conhecimento. E o que dizer do "hábito" de
estudo, palavra que encabeça uma lista que traz no
topo ações como escovar dentes, lavar as mãos
antes das refeições e banhar-se todos os dias?
Estudar e ler são funções bem mais complexas
e elevadas do que as citadas e, por conseguinte, não
merecem partilhar a mesma lista. Estudar e ler são
direitos e paixões, não hábitos. Hábitos
são ações mecânicas que se repetem
a intervalos regulares e que não requerem do autor
praticamente nenhum grau de empenho ou de consciência
e cuidado. Estudar e ler não podem ser feitos com esse
não comparecimento da própria pessoa. Muito
pelo contrário. Hábitos se fazem pela repetição
mecanizada. Estudar e ler se desenvolvem pelo desejo e pelo
prazer do conhecimento. São processos bastante diferentes
e deveriam requerer estratégias igualmente diferentes.
Já
o objetivo "complementação da aula"
remete a questões de gestão de sala de aula.
Como objetivo em si, não é bom nem mau. Explica-se:
se o professor é sistematicamente surpreendido pelo
sinal que bate ao final da aula e, por isso, delega ao aluno
a complementação do tema em casa, pode ser sinal
de mau gerenciamento da aula. Se, no entanto, o professor
tem uma relação melhor com o tempo da aula,
isto é, consegue sistematicamente distribuir os diferentes
momentos pelos devidos minutos, não é indicador
de mau gerenciamento se ele, eventualmente, transformar em
dever de casa alguma parte do que foi previsto para acontecer
dentro do próprio período da aula.
Dos
objetivos do dever de casa indicados pelos professores, falta
comentar aquele que apresenta o dever de casa como um meio
de integração família-escola. Esse objetivo
merece reflexão atenta por causa de seu inevitável
efeito na dinâmica familiar. Ora, cada família
tem características peculiares que a difere das demais.
Umas se preocupam em ficar atentas ao trabalho da escola e
procuram complementá-lo da melhor maneira possível,
oferecendo farta vida cultural aos filhos, o que lhes tece
sólido referencial no qual as aprendizagens escolares
encontrarão eco por toda a vida. Outras, pelo contrário,
consideram que escola é uma coisa e família
é outra e que, portanto, a escola não deveria
solicitar tanta participação familiar em assuntos
que, na sua opinião, são de exclusiva responsabilidade
da escola. São famílias que priorizam o lazer
pelo lazer ou que valorizam, por exemplo, as trocas interpessoais
que ocorrem nos momentos sociais da vida familiar. Para estas,
os deveres de casa podem estar roubando-lhes precioso tempo
de convívio familiar. E, na verdade, há escolas
que se alinham com uma e outra posição, ou seja,
da parte das escolas tampouco há consenso a respeito
do tipo e da quantidade de dever de casa que é legítimo
solicitar às famílias, da mesma forma que não
se decide de quem é a responsabilidade pela feitura
deste, como mencionado acima. E há outros tipos de
família. Muitos outros. Tantos, que, na verdade, deveriam
indicar que o dever de casa não pode ser o mesmo para
todos.
Um
dos aspectos mais pitorescos da obra de Martha Guanaes Nogueira
é que foi encontrada uma fala bastante recorrente entre
os alunos: "não posso estudar porque tenho muito
dever de casa". Para eles, "dever de casa"
se traduz em (a) responder perguntas, (b) resolver problemas,
(c) fazer continhas, (d) fazer exercícios no caderno.
E "estudar" significa: (a) ler, (b) pesquisar, aprofundar
um assunto. É de se espantar o ponto a que chegou a
esquizofrenia escolar!
A escola precisa pensar em eliminar essa dicotomia entre dever
de casa e estudar. E, para fazê-lo, precisa mobilizar
suas equipes para estudar e pensar o seu fazer. A
pesquisa de Martha Guanaes no universo dos pais revelou que
eles são os mais críticos do dever de casa,
porque, através dele, são empurrados para as
funções de professor, inspetor, explicador,
controlador, pesquisador e não são poucos os
que se declararam a favor de sua extinção!
A
autora arremata seu trabalho com os seguintes comentários:
A
escola para os dias atuais e futuros precisa garantir e ampliar
espaços para que o aluno seja construtor do saber.
"Ao persistir nessa prática retrógrada
e reprodutivista do dever de casa, a escola está compactuando
para formar exatamente o fracassado do futuro: por investir
mais na memorização para passar no vestibular
do que na criatividade". Gilberto Dimenstein manifesta sua indignação por constatar
que no Brasil de hoje "são raras as pessoas em
pânico com essas fábricas de obsoletos"
(Folha de São Paulo, 2-11-1997).
Tal contradição também tem sido evidenciada
na prática do dever de casa. Excesso de tarefas de
casa pode gerar, e tem gerado, alunos ignorantes. Para a maioria
dos alunos, a tarefa de casa é mecânica, rotineira,
cansativa, mero cumprimento de uma obrigação
escolar, não acrescentando nada em termos de aprendizagem.
Assemelha-se mais a um trabalho braçal, pelo acúmulo
de tarefas que precisam ser executadas a tempo e a contento.
A escola está sobrecarregando os alunos de atividades.
Ter 35 problemas para resolver em casa é privilegiar
a quantidade em detrimento da qualidade. Passa a ser repetição
mecânica, deseducativa para a formação
do cidadão, contribui para desmotivar e frustrar a
esperança de grande parcela de cidadãos brasileiros,
para os quais ainda é a escola o único meio
possível de melhoria de vida.
Identificando-me
com esses questionamentos, não acredito no valor pedagógico
de exercícios ditos "de sedimentação
ou de fixação de conteúdos". A aprendizagem
não se dá através da repetição
mecanizante, mas pela revisitação de um mesmo
tema por diferentes portas e janelas de entrada, possibilitando,
a cada vez, novas conexões.
É
importante que as tarefas propostas para o aluno estejam efetivamente
a serviço do desenvolvimento da autoria, ou seja, essas
tarefas deveriam ser, sobretudo, oportunidades de estimulo
à sua própria produção. Que a
tarefa de casa remeta-o ao estudo, à pesquisa e que
lhe encomende textos e trabalhos instigantes e significativos.
Ao longo de todo o ano letivo, o aluno terá tido a
oportunidade de fazer brotar uma farta e caudalosa produção
de textos próprios. Dessa forma, assumirá cada
vez mais a posição de autor e desenvolverá
sua própria metodologia de trabalho.
Heloisa
Padilha é Educadora, Psicopedagoga e Escritora
- Texto extraído da revista eletrônica "Percursos".
|