Aprendendo
a pensar
Publicado
nesta sessão em 14/10/05
A maioria
das aulas que tive foi expositiva. Um professor, normalmente
mal pago e por isso mal-humorado, falava horas a fio, andando
para lá e para cá. Parecia mais preocupado em
lembrar a ordem exata de suas idéias do que em observar
se estávamos entendendo o assunto ou não.
Ensinavam
as capitais do mundo, o nome dos ossos, dos elementos químicos,
como calcular o ângulo de um triângulo e muitas
outras informações que nunca usei na vida. Nossa
obrigação era anotar o que o professor dizia
e na prova final tínhamos de repetir o que havia sido
dito.
A prova
final de uma escola brasileira perguntava recentemente se
o país ao norte do Uzbequistão era o Cazaquistão
ou o Tadjiquistão. Perguntava também o número
de prótons do ferro. E ai de quem não soubesse
todos os afluentes do Amazonas. Aprendi poucas coisas que
uso até hoje. Teriam sido mais úteis aulas de
culinária, nutrição e primeiros socorros
do que latim, trigonometria e teoria dos conjuntos.
Curiosamente
não ensinamos nossos jovens a pensar. Gastamos horas
e horas ensinando como os outros pensam ou como os outros
solucionaram os problemas de sua época, mas não
ensinamos nossos filhos a resolver os próprios problemas.
Ensinamos
como Keynes, Kaldor e Kalecki, economistas já falecidos,
acharam soluções para um mundo sem computador
nem internet. De tanto ensinar como os outros pensavam, quando
aparece um problema novo no Brasil buscamos respostas antigas
criadas no exterior. Nossos economistas implantaram no Brasil
uma teoria americana de "inflation targeting", como
se os americanos fossem os grandes especialistas em inflação,
e não nós, com os quarenta anos de experiência
que temos. Deu no que está aí.
De tanto
estudar o que intelectuais estrangeiros pensam, não
aprendemos a pensar. Pior, não acreditamos nos poucos
brasileiros que pensam e pesquisam a realidade brasileira
nem os ouvimos. Especialmente se eles ainda estiverem vivos.
É sandice acreditar que intelectuais já mortos,
que pensaram e resolveram os problemas de sua época,
solucionaram problemas de hoje, que nem sequer imaginaram.
Raramente ensinamos os nossos filhos a resolver problemas,
a não ser algumas questões de matemática,
que normalmente devem ser respondidas exatamente da forma
e na seqüência que o professor quer.
Matemática,
estatística, exposição de idéias
e português obviamente são conhecimentos necessários,
mas eu classificaria essas matérias como ferramentas
para a solução de problemas, ferramentas que
ajudam a pensar. Ou seja, elas são um meio, e não
o objetivo do ensino. Considerar que o aluno está formado,
simplesmente por ele ter sido capaz de repetir os feitos intelectuais
das velhas gerações, é fugir da realidade.
Num mundo
em que se fala de "mudanças constantes",
em que ""nada será o mesmo", em que
o volume de informações "dobra a cada dezoito
meses", fica óbvio que ensinar fatos e teorias
do passado se torna inútil e até contraproducente.
No dia em que os alunos se formarem, mais de dois terços
do que aprenderam estarão obsoletos. Sempre teremos
problemas novos pela frente. Como iremos enfrentá-los
depois de formados? Isso ninguém ensina.
Existem
dezenas de cursos revolucionários que ensinam a pensar,
mas que poucas escolas estão utilizando. São
cursos que analisam problemas, incentivam a observação
de dados originais e a discussão de alternativas, mas
são poucas as escolas ou os professores no Brasil treinados
nesse método do estudo de caso.
Talvez
por isso o Brasil não resolva seus inúmeros
problemas. Talvez por isso estejamos acumulando problema após
problema sem conseguir achar uma solução.
Na próxima
vez em que seu professor começar a andar de um lado
para o outro, pense no que você está perdendo.
Poderia estar aprendendo a pensar.
20 de
agosto de 2002, Veja. Stephen Kanitz é administrador
(www.kanitz.com.br)
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