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Ela: A Prova

Publicado nesta sessão em 15/04/05

Como transformar um recurso tradicionalmente coercitivo num instrumento de aprendizado, de avaliação do trabalho de alunos e professores e continuação de discussões?

Quando me lembro das provas a que fui submetido, lembro também que elas queriam saber muito mais do que eu não sabia, do que avaliar o que eu tinha assegurado nas aulas e em meus estudos. Era um clássico! O professor queria que os alunos se dessem muito mal, as questões eram feitas, acreditem, para se errar.

Eu me lembro também de meu único desmaio sem anúncio. Foi num período de recuperação, tinha me dado muito mal na suprema matemática e esperava o dia da prova que definiria se eu entraria na faculdade aos 17 ou aos 18 anos (nessa época eu tinha apenas 12). O desmaio aconteceu enquanto eu descia as escadas de minha casa, e lembrei que naquele exato momento a prova estava sendo aplicada, foi um descuido de quem está no período de recuperação e esquece a rotina escolar. Corri para a escola, aleguei desarranjo intestinal, colou (a mentira) eu, não colei porque a sala já estava vazia. No fim, após o trauma, entrei na universidade aos 17.

A história ilustra um tempo que ainda não passou, a prova, em muitas instituições e em todos os níveis, não é um instrumento auxiliar no processo de ensino e aprendizado, mas um monstro que toma proporções terríveis de acordo com o perfil do professor, ou sua capacidade de criar medo a partir de expectativas e cara de mau ao marcar o dia do evento de "verificação".

Mas, enquanto houver a prática, com ela vem a avaliação. A prova não é instrumento para medir o que não se sabe, mas, sobretudo para avaliar um trabalho conjunto que é planejado e que tem objetivos definidos. A avaliação do tipo prova deve continuar as discussões em sala, deve buscar apresentar num resumo, as idéias com clareza e a retomada sistematizada das discussões.

Nesse pequeno relato, vou tratar da história e ela: A Prova.

Tratar de temas que se passaram há trezentos anos, ou mesmo vinte anos atrás, pode ser extremamente desinteressante. Assim é o estudo da história. Eu não posso ir ao laboratório, encher um aquário de burgueses, adicionar "micronobres", um pequeno rei, balançar, tapar e esperar alguns dias para ver se a Revolução Francesa acontece. A História não tem o benefício da reprodução de experiências que enriquecem os estudos da sala de aula. No entanto, estar preparado para estabelecer conexões coerentes entre os conteúdos e o cotidiano dos alunos é fundamental para o estudo desta disciplina.

Será isso conversa fiada? Será possível estabelecer pontes temporais tão distantes? Sim meus amigos, é possível. Considere que num engenho colonial estabeleceram-se relações sociais que impregnam o nosso dia-a-dia. Imagine que a mulher luta por seu espaço na sociedade atual porque desde o Brasil colonial foi criada como a rainha do lar, gestora das coisas caseiras e sobretudo, mãe de enorme prole, sinônimo da virilidade do marido e do ajuste social. Imagine que a discriminação racial nasceu neste espaço, há 400 anos atrás, a partir da abominável escravidão, e que ela permeia involuntariamente nossas ações na atualidade. E não se esqueça de que, o que o grande Gilberto Freyre chamou de Democracia Racial é uma balela, no final, venceu o projeto do branco, oprimindo os valores e tradições indígenas e negras. No engenho colonial nasceu a idéia de que mulheres desfavorecidas economicamente e de poucas horas dedicadas ao conhecimento formal, são para se praticar sexo fácil, conseguir prazer estribado sobre sua miséria. Esta prática é antiga e o assédio à mulheres de camadas mais baixa ainda é visto como de poucas conseqüências: "se ela tiver um filho eu mando abortar", "já sei, digo que não é meu porque ela é promíscua", "fujo para fora do país com auxílio de meus familiares"....

Inúmeros exemplos podem ser dados: vivemos numa sociedade liberal burguesa fundamentada nos ideais de direitos civis do século XVIII, pessoas reclamam direitos exclusivos sustentados por um sobrenome, exaltando a linhagem como forma de garantir favores públicos ou freqüentar eventos sociais. Não há limites.

Então, devo concluir: a História não está há 400 anos atrás, ela está aí, mordendo nossos calcanhares e por mais que calcemos sapatos importados, seus dentes são afiados, machucam e a única forma de se vacinar contra sua raiva é o estudo e o entendimento de seus processos "melindrosos".

Mas, em minha breve experiência profissional, aprendi que um tema histórico em particular, exige menos esforços para atrair a atenção do aluno, fomentar discussões e se transformar num objeto de estudo coletivo que sempre transcende o planejamento, por mais extenso que eu o programe todo o ano. A implantação de uma ditadura militar no Brasil em 1964 e a discussão de suas práticas e conseqüências, sempre se estende na sala, abre espaço para a visita de pessoas que vivenciaram o período, estimula leituras complementares espontâneas, coleta e promove a apresentação de materiais alternativos, exibição de filmes...

Não tenho certeza do motivo que provoca esse interesse, pode ser porque é um evento recente, pode ser porque pessoas que estão vivas foram envolvidas, pode ser porque suas conseqüências são mais perceptíveis. Longe de resolver este problema agora, prefiro utilizar esse interesse para promover "excelentes" situações de ensino-aprendizado, incluindo aí a avaliação do tipo prova.

Dispondo de tantos debates, da promoção de situações complementares com vídeo, imagem, leitura adicional, fica fácil elaborar uma prova que continue esse processo, ao invés de encerrá-lo com questões que privilegiem a memória e que apresentem resultados estéreis e pouco significativos na forma de números, habilitando alunos e professor a seguir com o livro didático pulando para o capítulo seguinte.

Em 2005, a turma do 2º ano do Ensino Médio iniciou os estudos sobre a ditadura nas duas últimas semanas de março, as discussões dos temas devem ir até o final de abril, entre a exibição de filmes e debates sobre leituras complementares. Nesse ínterim, na Segunda semana de abril acontece o processo programado de avaliações do tipo prova. Assim, não tomo a prova como exame de verificação de conhecimento ao fim de uma unidade, mas sim como mais um elemento complementar e de avaliação sobre o andamento dos trabalhos desenvolvidos em sala.

A prova que foi elaborada e aplicada, traz fotos, situações, imagens passíveis de interpretação que vão além do puro conteúdo. Há uma preocupação em desenvolver os procedimentos de interpretação, de enriquecer o repertório visual, as associações, de estimular o estabelecimento de relações entre recursos visuais e leitura. Mas também há o cuidado em "verificar" se a leitura do livro, que embasa as discussões e é nosso instrumento de trabalho e informação diária, foi feita com cuidado e enriqueceu o aluno com subsídios que ele ainda vai precisar num exame tradicional que é o vestibular.

A experiência com uma prova que se dá no desenrolar de um estudo em particular, e não no final de uma unidade, reforça o papel de toda a avaliação como processo e não como um fim.

Provas e questões que estimulem a multiplicidade de respostas, alternadas com a responsabilidade da "verificação" de estudo são instrumentos de auxílio, não de coerção, repressão ou medida. Banir a prova é equívoco, revisá-la, ser responsável na sua elaboração e democrático na discussão deste recurso com os alunos enriquece a prática docente.

A prova é um instrumento que integra uma complexa avaliação, que se completa na conduta do dia-a-dia, na elaboração de trabalhos em grupo, individuais, no cumprimento de prazos, na percepção do respeito pelos temas estudados, na seriedade em abordar temas que são delicados e tabus em nossa sociedade, no exercício de se evitar anacronismos e reproduzir práticas excludentes.

A educação e o conhecimento são libertários, que não se derramem frustrações em forma de prova maldita.

Márcio Vaccari – Professor de História de 8ª série e Ensino Médio e Assessor de Ciências Sociais da Monteiro Lobato Cems.

 

 

   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
 
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