Pelé,
Edinho e a culpa dos pais
Publicado
nesta sessão em 08/07/05
Não
dá para culpar os pais de um adulto pelos caminhos
que ele decide trilhar. Ao deixar a adolescência, o
ser humano torna-se livre para optar, para fazer suas escolhas,
para se cuidar.
Na semana
passada, todos puderam acompanhar as notícias do envolvimento
de Edinho, filho de Pelé, com as drogas. Muitos, também,
se emocionaram ao assistir à entrevista em que Pelé
se colocou como pai e se culpou por assumir uma extensa agenda
de compromissos que, segundo ele, roubou seu tempo de dedicação
aos filhos e impediu que percebesse -e interviesse- na vida
de Edinho a fim de evitar o que ele considerou uma tragédia.
A maioria
dos que têm filhos -adolescentes principalmente- ficou
solidária a Pelé e bem preocupada com os próprios
filhos, já que a declaração do ídolo
do futebol serviu para reafirmar o que se convencionou chamar
de culpa dos pais pela falta de tempo para dedicar aos filhos.
O fato -e sua repercussão- merece uma boa reflexão.
Não a respeito do assunto das drogas, mas da relação
dos pais com sua tarefa educativa e da sociedade com os adultos.
Nunca
é demais lembrar que o alvo da educação
é a autonomia, ou seja, a possibilidade de, terminada
a adolescência, o jovem ser capaz de viver por conta
própria: assumir a responsabilidade de governar sua
vida e de arcar com as conseqüências de suas escolhas.
Isso nada mais é, aliás, do que liberdade de
viver.
A criança
não se relaciona diretamente com as responsabilidades
da vida, com os problemas que surgem e com o conseqüente
sofrimento provocado por eles. Elas são protegidas
pelos pais e tuteladas por eles nesse período da vida.
A partir da adolescência, entretanto, os pais precisam
diminuir gradualmente essa tutela e proteção
justamente para levar o filho na direção da
autonomia de seu viver.
Ao chegar
aos 17, 18 anos, o jovem já tem condições
de ficar sem a proteção dos pais em tudo. Mas
os filhos da classe média vivem um paradoxo no mundo
contemporâneo.
Desde
a infância, são jogados no mundo adulto e levados
a se relacionar com ele; dele não são protegidos
pelos pais e talvez seja mesmo essa uma tarefa impossível.
Por outro lado, são protegidos em demasia pelos pais
de quase todos os sofrimentos inevitáveis da vida.
Os pais são um anteparo diante das vicissitudes da
existência humana; são eles que assumem e compartilham
as responsabilidades com os filhos e deixam a eles o desfrute
do viver. A conseqüência é clara: o jovem
termina a adolescência e continua dependente dos pais.
Essa dependência,
no entanto, não tem sido obstáculo para que
o jovem ingresse no mercado de trabalho, faça suas
escolhas na vida, estabeleça relações
amorosas e sexuais e, inclusive, tenha filhos. E ter filhos
é um momento dramático na vida: significa mudar
de lugar, deixar de ser protegido para proteger, enfrentar
as exigências da vida, a dor e o sofrimento para resguardar
os filhos, deixar os valores da juventude -mesmo que seja
jovem na idade- para assumir a maturidade. E nossos jovens
têm, tecnicamente, levado vida de gente grande, mas
sem a responsabilidade e conseqüência equivalentes.
Voltemos
ao caso que inspirou nossa conversa de hoje. Até parece
que ninguém se deu conta de que Edinho tem 34 anos.
Ele é, afinal, um homem adulto, que deve se responsabilizar
-e ser responsabilizado- pelas escolhas que fez na vida. Ele
tem filhos! Não precisa mais da proteção
e da tutela do pai para viver. Claro que, em momentos difíceis,
em qualquer idade, os pais sempre podem colaborar com os filhos.
Mas é muito mais um apoio afetivo, de encorajamento
e solidariedade apenas, nada mais. Logo, na velhice dos pais,
os filhos terão a chance e o dever de agradecer e retribuir
o que receberam deles.
Não
dá para culpar os pais de um adulto pelos caminhos
que ele decide trilhar. Ao deixar a adolescência, o
ser humano torna-se livre para optar, para se cuidar. Além
do mais, a educação que os filhos recebem dos
pais não os vacina contra nenhum caminho da vida. Aponta,
apenas, os rumos que os pais consideram dignos de viver. E
os pais erram muitas vezes.
ROSELY
SAYÃO é psicóloga e autora de
"Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha)
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