Vestibular
é único objetivo de pais e escolas
Publicado
nesta sessão em 01/04/05
Nos últimos
meses, pudemos acompanhar quase diariamente, na maioria dos
jornais, reportagens dos mais diversos tipos e com diferentes
enfoques a respeito do vestibular. Já, nos últimos
15 dias, foram os trotes que chamaram a atenção
tanto da imprensa quanto de quem transitou pelas ruas próximas
das faculdades.
Calouros
com os corpos pintados, alcoolizados, obedecendo a ordens
esdrúxulas dadas por veteranos dispostos a humilhar
e a tomar algumas cervejas com o dinheiro coletado pela moçada
foi o que mais pudemos encontrar. E os recém-ingressos
nas faculdades nem sempre desgostavam da situação
a que estavam sendo submetidos. Afinal, passaram no vestibular
e a grande conquista estava sendo publicamente anunciada.
Esse assunto
rende uma boa conversa.
Desde
muito cedo, o tema vestibular passa a fazer parte do cotidiano
de crianças e jovens. Muitas escolas de educação
infantil já se defrontam com pais que querem saber
se o projeto escolar considera o exame para o ingresso na
faculdade. É possível uma coisa dessa? A criança
nem bem entende direito o que é escola e o que significa
ser aluno, e os pais já pensam no vestibular.
Durante
todo o ensino fundamental, professores e pais continuam com
a ladainha: usam e abusam da ameaça do vestibular para
tentar fazer a garotada estudar. O grande diferencial das
escolas, para muitos pais, é que ela prepare bem seus
alunos para passar no tal exame.
E no ensino
médio, então? Muitos alunos que freqüentaram
durante oito anos a mesma escola são encorajados, quando
não obrigados, pelos pais a mudar justamente nessa
hora – e não por um motivo justo, mas porque
uma outra tem mais tradição ou é mais
eficaz em classificar alunos para cursar determinadas faculdades.
O fato
é que passar no vestibular acaba se tornando o grande
desafio dos jovens, a grande meta da vida, uma das coisas
mais importantes a almejar. O grande problema é que
tudo pára por aí mesmo. Passou no vestibular,
pronto: a caminhada termina, pois o objetivo foi alcançado
e nada mais faz sentido para muitos dos jovens então
universitários, antes tão concentrados na meta
a alcançar.
Os pais
entraram de cabeça nesse equívoco e boa parte
das escolas foi junto. Basta ver as enormes propagandas que
as escolas de ensino médio ostentam nas ruas das grandes
cidades para constatar o que elas – e os pais também
– valorizam: os primeiros lugares nos exames vestibulares,
a quantidade de alunos que conseguiram acesso às faculdades.
Se o aluno aprendeu a viver e a conviver no espaço
público, se experimentou verdadeiramente as responsabilidades
e os deveres decorrentes da vida em grupo, se vivenciou a
solidariedade com os colegas, se teve a oportunidade de se
tornar aluno e apreciar o conhecimento, isso não importa.
Importante mesmo é entrar na faculdade.
Já
sair dela é uma outra história. Os professores
universitários conhecem de perto, bem de perto, o desinteresse
e a passividade dos alunos do chamado ensino "superior".
Fazer faculdade, hoje, significa a oportunidade de viver na
farra para grande parte dos jovens. Abandonar o curso escolhido,
perder o interesse pelos estudos, trocar várias vezes
de curso e deixar disciplinas pendentes ano após ano
são práticas cada vez mais comuns na vida universitária.
Muitos
dos jovens, antes tão envolvidos com o estudo do que
possibilitaria a entrada na faculdade, passam a mostrar interesse
em abandonar a escola para dedicar-se a algum tipo de atividade
profissional que dispense a graduação. O que
é que estamos fazendo com esses jovens?
Já
está na hora de deixar de dar tamanha importância
ao vestibular e de apontar a vida de filhos e alunos para
essa direção. Os jovens merecem orientação
melhor na vida, eles precisam dessa chance. E cabe a nós,
adultos, essa tarefa. Pais e professores bem que poderiam
se unir para dar um basta a tanta bobagem. Que tal os alunos
aprenderem literatura para entender melhor a vida em vez de
estudarem o resumo e a análise de grandes obras literárias
para passar no vestibular?
Rosely
Sayão - Psicóloga e autora
de "Como Educar Meu Filho?"
(Ed. Publifolha). E-mail: roselysayao@folhasp.com.br.
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