Contra
o que os jovens podem se rebelar?
Publicado
nesta sessão em 08/09/06
Quem
tem filhos adolescentes e leu a notícia sobre um acidente
de carro ocorrido recentemente em que estavam cinco jovens
de 14 a 15 anos - um deles ao volante- e em que três
garotas morreram certamente imaginou o sofrimento e a dor
que uma tragédia assim deve provocar nos familiares.
Pois bem: já está na hora de pararmos de olhar
para tais cenas como se assistíssemos a um filme de
terror. Não podemos fechar os olhos quando há
indícios de que o pior está para acontecer.
É preciso reconhecer que estamos todos nessas cenas.
E não só como espectadores: estamos envolvidos
nelas até os ossos.
Sempre
que uma tragédia que envolve jovens da classe média
acontece surgem discursos oportunistas e moralizantes que
repetem que os jovens não têm limites, não
têm objetivo na vida, são "aborrescentes",
sua rebeldia é vazia, não respeitam nada etc.
Essa lengalenga precisa acabar. Basta de demonizar crianças
e jovens. Em vez disso, talvez seja mais proveitoso lembrar
o verso de uma música interpretada pela banda Legião
Urbana: "Desde pequenos nós comemos lixo/ Comercial
e Industrial/ Mas agora chegou nossa vez/ Vamos cuspir de
volta o lixo em cima de vocês".
Os
jovens de hoje, como os de todas as épocas, precisam
lutar contra algo, porque é negando o que querem que
eles sejam que eles começam a caminhar em direção
a saber quem, de fato, são. Mas eles têm agora
poucos motivos para lutar contra os adultos. Estes têm
preferido ser companheiros legais, confidentes, defensores
da liberdade que eles deveriam desfrutar, bravos guerreiros
contra o desprazer que, porventura, pudesse atrapalhar a vida
dos jovens; têm compartilhado com eles estilos de vida
e anseios. Não funcionam mais como alvo de confronto,
já que quase não provocam restrições
à vida dos jovens. Foi o tédio que se tornou
o inimigo mortal, é contra ele que precisam lutar.
Fomos
nós, adultos, que instalamos o tédio na vida
dos jovens. Tudo eles têm e não precisam se esforçar
para conseguir o que -julgam- desejam ter. São prisioneiros
da ideologia de consumo, peça tão importante
no mundo contemporâneo. Além disso, fazem o que
acreditam que gostam e devem fazer nessa etapa da vida. Aí
incluem-se festas, sexo, consumo, drogas e farras. Na verdade,
eles não têm escolha.
É
com profundo desprezo que olham para as normas da vida social
e é com desdém que tratam os outros. Querem
ser independentes. Mas tudo o que conseguem é serem
pessoas desgarradas de qualquer grupo. Nem o que chamam de
grupo pode ser considerado como tal. Trata-se mais de um agrupamento
de jovens que giram em torno de interesses oportunistas e
temporariamente comuns.
Contra
o tédio resultante de uma existência tão
vazia eles lançam a ousadia, a impulsividade e a bravura
que, potencialmente, têm. Por isso os esportes radicais
-tanto os lícitos e formais quanto os ilícitos
e informais- fazem tanto sucesso entre eles. É a morte
que eles desafiam porque esta parece ser a única autoridade
que pode lhes restringir a vida. Parece que é apenas
nessas práticas que eles conseguem vislumbrar alguma
possibilidade de realizar feitos heróicos. Em nenhuma
outra atividade da vida que levam se exige que ele expressem
coragem, tenacidade, perseverança, dedicação
e concentração, por exemplo. Os adultos responsáveis
por eles não querem exigir quase nada. Apenas que passem
no vestibular. E isso tem tão pouca importância
para uma vida... E nós, adultos, temos assistido quase
impassíveis à situação de vida
que eles experimentam atualmente. Uma vez ou outra nos comovemos,
nos indignamos. Mas a reação pára por
aí. Não conseguimos, ainda, assumir que a infância
e a juventude são questões que dizem respeito
a todos nós, e não só aos pais e aos
professores. Não demos conta, ainda, de tornar essa
uma questão coletiva, de interesse comum.
Cenas
trágicas como a do acidente referido devem servir para
colocarmos esse debate em dia. Afinal, o que temos feito pelos
jovens além de deixá-los abandonados com seus
próprios recursos e vivermos como se fôssemos
nós os adolescentes?
*Texto
originalmente publicado no Folha
Equilíbrio.
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